É, desde que eu me lembro de saber ler e devorar os livros todos que tinha lá em casa da minha avó, o meu escritor favorito! Sou muito dada a escritores sul-americanos, nem sei bem porquê...Mas já a Isabel Allende me dá muito gosto e tranquilidade a ler. O Gabriel (sim, sim, andei com ele no curso de culinária, por isso tenho esta confiança toda!:p), escreve de uma forma tão simples quanto transparente e límpida. Todas as histórias me prendem do princípio ao fim com um entusiasmo que me enche por dentro. Sempre que o leio sinto-me mais leve, por momentos embarco naquela realidade que ele tão bem me põe à frente dos olhos. Adoro quando consigo visualizar o que leio, e ele tem esse poder em mim. Li os Cem anos de solidão no mesmo dia, tal era a sede de chegar ao fim. Há uns meses voltei a ler e voltei a ficar embriagada nas palavras. Também gosto muito do Amor em tempos de cólera, da Crónica de uma morte anunciada (tia madrinha...sabes bem!;)), A aventura de Miguel Littin, clandestino no Chile, De Amor e outros Demónios (soberbo!), e a biografia completamente de me fazer roer de inveja Viver para Contá-la. É daquelas vidas que se cruzam com as situações mais cómicas, trágicas e únicas. Faz hoje 80 anos.
Aqui fica um excerto do Viver para Contá-la, que só encontrei em brasileiro. Não é que aprecie muito mas...dá para abrir o apetite!;)
O ENCONTRO COM A VIDA
Minha mãe caminhava mui ereta, com seu passo ligeiro, suando apenas por dentro do vestido de luto e num silêncio absoluto, mas sua mortal palidez e seu perfil afilado delatavam o que lhe passava internamente. Ao final da trilha, vimos o primeiro ser humano: uma mulherzinha de aspecto empobrecido, que apareceu na esquina de Jacobo Baracaza e passou ao nosso lado com uma panelinha cuja tampa mal posta marcava o compasso de seu passo. Minha mãe me sussurrou sem mirá-la:
- É Vita.
Eu não a tinha reconhecido. Trabalhou desde menina na cozinha de meus avós, e por muito que nos tivéssemos mudado nos teria reconhecido, se houvesse dignado olhar-nos. Mas não: passou em outro mundo.
Ainda hoje me pergunto se Vita não tinha morrido antes, muito antes daquele dia. Quando dobramos a esquina, a poeira me ardia nos pés entre o tecido das sandálias. A sensação de desamparo se me tornou insuportável. Então me vi a mim mesmo e vi minha mãe, tal como vi quando menino a mãe e a irmã do ladrão que Maria Consuegra tinha matado com um tiro uma semana antes, quando ele tratava de forçar a porta de sua casa. Às três da madrugada a tinha despertado o ruído de alguém que tentava forçar de fora a porta da rua. Levantou-se sem acender a luz, buscou às escuras no roupeiro um revólver arcaico que ninguém tinha disparado desde a guerra dos Mil Dias e localizou na escuridão não só o lugar onde estava a porta mas a altura exata da fechadura. Então, apontou a arma com as duas mãos, fechou os olhos e apertou o gatilho. Nunca antes tinha atirado, mas o tiro deu no alvo através da porta.
Foi o primeiro morto que vi. Quando ia para a escola às sete da manhã, o corpo ainda estava estendido na calçada sobre uma mancha de sangue seca, com o rosto desbaratado pelo chumbo que lhe desfez o nariz, saindo por uma orelha. Tinha um abrigo xadrez colorido de marinheiro, uma calça ordinária com uma corda em vez de cinturão e estava descalço. A seu lado, no solo, encontraram a gazua artesanal com que tinha tentado forçar a fechadura. Os notáveis acudiram à casa de Maria Consuegra para dar-lhe os pêsames por ter matado o ladrão.
Fui essa noite com Papalelo, e a encontramos sentada numa poltrona de Manila que parecia um enorme pavão de vime, no meio do fervor dos amigos que lhe escutavam o conto mil vezes repetido. Todos estavam de acordo com ela de que tinha disparado por puro medo. Foi então quando meu avô lhe perguntou se tinha ouvido algo depois do disparo e ela respondeu que primeiro houve um grande silêncio, depois o ruído metálico da gazua e em seguida uma voz mínima e dolorida: «Ai, minha mãe!».
Parece que Maria Consuegra não tinha tomado consciência deste lamento desgarrado até que meu avô lhe fez a pergunta. Só então começou a chorar. Isto sucedeu numa segunda-feira. Na terça-feira da semana seguinte, na hora da sesta, estava jogando pião com Luis Carmelo Correa, meu amigo mais antigo na vida, quando nos surpreendeu que os adormecidos despertavam antes do tempo e assomavam nas janelas. Então vimos na rua deserta uma mulher de luto fechado com uma menina de uns 12 anos que levava um ramo de flores murchas envolto num jornal. Protegiam-se do sol abrasador com um guarda-chuvas negro, completamente alheias à impertinência das pessoas que as viam passar. Eram a mãe e a irmã menor do ladrão morto, que levavam flores para o túmulo.
Aquela visão me perseguiu durante muitos anos, como um sonho unânime que todo o povoado viu passar pelas janelas até que consegui exorcizá-la em um conto. Mas a verdade é que não tomei consciência do drama da mulher e da menina, nem de sua dignidade imperturbável, até o dia em que fui com minha mãe a vender a casa e me surpreendi a mim mesmo caminhando pela mesma rua solitária e à mesma hora mortal.
«Sinto-me como se eu fosse o ladrão», disse. Minha mãe não me entendeu. Mais ainda: quando passamos em frente da casa de Maria Consuegra sequer olhou a porta onde ainda se notava o remendo da madeira no buraco da bala.
Anos depois, rememorando com ela aquela viagem, comprovei que se lembrava da tragédia, mas teria dado a alma para esquecê-la. Isto foi mais evidente quando passamos em frente à casa onde viveu don Emilio, mais conhecido como o Belga, um veterano da I Guerra Mundial que tinha perdido o uso das duas pernas num campo minado da Normandia, e que um domingo de Pentecostes se pôs a salvo dos tormentos da memória com uma fumaça de cianureto. Eu não tinha mais de seis anos, mas me lembro com se fosse hoje a confusão que a notícia causou às sete da manhã. Foi tão memorável que quando voltamos ao povoado para vender a casa, minha mãe por fim rompeu seu mutismo depois de 20 anos. O pobre Belga suspirou. «Como você disse, nunca mais voltei a jogar xadrez».
Nosso propósito era ir direto à casa. Contudo, quando estávamos a uma quadra, minha mãe se deteve de pronto e dobrou a esquina anterior. «Melhor irmos por aqui», me disse. E como quis saber porquê, me respondeu: «Porque tenho medo».
- É Vita.
Eu não a tinha reconhecido. Trabalhou desde menina na cozinha de meus avós, e por muito que nos tivéssemos mudado nos teria reconhecido, se houvesse dignado olhar-nos. Mas não: passou em outro mundo.
Ainda hoje me pergunto se Vita não tinha morrido antes, muito antes daquele dia. Quando dobramos a esquina, a poeira me ardia nos pés entre o tecido das sandálias. A sensação de desamparo se me tornou insuportável. Então me vi a mim mesmo e vi minha mãe, tal como vi quando menino a mãe e a irmã do ladrão que Maria Consuegra tinha matado com um tiro uma semana antes, quando ele tratava de forçar a porta de sua casa. Às três da madrugada a tinha despertado o ruído de alguém que tentava forçar de fora a porta da rua. Levantou-se sem acender a luz, buscou às escuras no roupeiro um revólver arcaico que ninguém tinha disparado desde a guerra dos Mil Dias e localizou na escuridão não só o lugar onde estava a porta mas a altura exata da fechadura. Então, apontou a arma com as duas mãos, fechou os olhos e apertou o gatilho. Nunca antes tinha atirado, mas o tiro deu no alvo através da porta.
Foi o primeiro morto que vi. Quando ia para a escola às sete da manhã, o corpo ainda estava estendido na calçada sobre uma mancha de sangue seca, com o rosto desbaratado pelo chumbo que lhe desfez o nariz, saindo por uma orelha. Tinha um abrigo xadrez colorido de marinheiro, uma calça ordinária com uma corda em vez de cinturão e estava descalço. A seu lado, no solo, encontraram a gazua artesanal com que tinha tentado forçar a fechadura. Os notáveis acudiram à casa de Maria Consuegra para dar-lhe os pêsames por ter matado o ladrão.
Fui essa noite com Papalelo, e a encontramos sentada numa poltrona de Manila que parecia um enorme pavão de vime, no meio do fervor dos amigos que lhe escutavam o conto mil vezes repetido. Todos estavam de acordo com ela de que tinha disparado por puro medo. Foi então quando meu avô lhe perguntou se tinha ouvido algo depois do disparo e ela respondeu que primeiro houve um grande silêncio, depois o ruído metálico da gazua e em seguida uma voz mínima e dolorida: «Ai, minha mãe!».
Parece que Maria Consuegra não tinha tomado consciência deste lamento desgarrado até que meu avô lhe fez a pergunta. Só então começou a chorar. Isto sucedeu numa segunda-feira. Na terça-feira da semana seguinte, na hora da sesta, estava jogando pião com Luis Carmelo Correa, meu amigo mais antigo na vida, quando nos surpreendeu que os adormecidos despertavam antes do tempo e assomavam nas janelas. Então vimos na rua deserta uma mulher de luto fechado com uma menina de uns 12 anos que levava um ramo de flores murchas envolto num jornal. Protegiam-se do sol abrasador com um guarda-chuvas negro, completamente alheias à impertinência das pessoas que as viam passar. Eram a mãe e a irmã menor do ladrão morto, que levavam flores para o túmulo.
Aquela visão me perseguiu durante muitos anos, como um sonho unânime que todo o povoado viu passar pelas janelas até que consegui exorcizá-la em um conto. Mas a verdade é que não tomei consciência do drama da mulher e da menina, nem de sua dignidade imperturbável, até o dia em que fui com minha mãe a vender a casa e me surpreendi a mim mesmo caminhando pela mesma rua solitária e à mesma hora mortal.
«Sinto-me como se eu fosse o ladrão», disse. Minha mãe não me entendeu. Mais ainda: quando passamos em frente da casa de Maria Consuegra sequer olhou a porta onde ainda se notava o remendo da madeira no buraco da bala.
Anos depois, rememorando com ela aquela viagem, comprovei que se lembrava da tragédia, mas teria dado a alma para esquecê-la. Isto foi mais evidente quando passamos em frente à casa onde viveu don Emilio, mais conhecido como o Belga, um veterano da I Guerra Mundial que tinha perdido o uso das duas pernas num campo minado da Normandia, e que um domingo de Pentecostes se pôs a salvo dos tormentos da memória com uma fumaça de cianureto. Eu não tinha mais de seis anos, mas me lembro com se fosse hoje a confusão que a notícia causou às sete da manhã. Foi tão memorável que quando voltamos ao povoado para vender a casa, minha mãe por fim rompeu seu mutismo depois de 20 anos. O pobre Belga suspirou. «Como você disse, nunca mais voltei a jogar xadrez».
Nosso propósito era ir direto à casa. Contudo, quando estávamos a uma quadra, minha mãe se deteve de pronto e dobrou a esquina anterior. «Melhor irmos por aqui», me disse. E como quis saber porquê, me respondeu: «Porque tenho medo».
em: Viver para Contá-la
E aqui estão eles! :) Epá...entretanto temos MESMO que começar a combinar as cenas para sábado porque na verdade já começo com o nervoso miudinho do que vou fazer para vos encher o bandulho! LOL Da outra vez foram as favas com chouriço, e desta vez???? Aceitam-se sugestões!
Já sabem, podem lá ficar a dormir se não quiserem conduzir tarde e a más horas. Assim no outro dia girávamos até à praia e tal para uma voltinha e tal...nao? ;) E também já sabem, desta vez não só têm direito a um magnífico jantar mas também a levar um netinho do poder para casa de bónus!LOL
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